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O que as marcas de frenagem nos informam sobre as colisƵes?

  • Foto do escritor: Patrick Vizzotto
    Patrick Vizzotto
  • 29 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 25 de jan.

Rastros de borracha viram equações: veja como a física ajuda a decifrar acidentes de trânsito.


marca de derrapagem no asfalto


Imagine esta cena: um acidente aconteceu em uma rodovia. Dois automóveis colidiram. Nenhuma cĆ¢mera flagrou o momento exato do impacto. As testemunhas nĆ£o viram com clareza quem estava em alta velocidade. Mas no asfalto, um detalhe resiste ao calor da tragĆ©dia: longas marcas de frenagem. Faixas negras, impressas como linhas de código — e quem sabe lĆŖ-las, como os peritos, pode reconstruir alguns detalhes da história que levou Ć  colisĆ£o.


Ɖ aqui que entra a fĆ­sica. Em especial, a fĆ­sica dinĆ¢mica.

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O asfalto tambƩm fala

Quando um veĆ­culo freia bruscamente, seus pneus deixam rastros de atrito no pavimento. Essas marcas, chamadas tecnicamente de marcas de frenagem ou de derrapagem, guardam informaƧƵes preciosas. Elas indicam que houve uma desaceleração repentina, e que o motorista tentou evitar um impacto iminente. Quanto mais longa a marca, maior a energia que o veĆ­culo precisava dissipar para parar — e, logo, maior era sua velocidade no inĆ­cio da frenagem.


Você jÔ imaginou que fosse possível descobrir a velocidade no momento em que o carro começou a frear usando somente uma trena e uma fórmula da física do Ensino Médio?


Um veƭculo em velocidade, possui energia associada ao seu movimento denominada Energia CinƩtica:

Ec = 1/2.m.v² (1)


Onde m Ć© a massa do veĆ­culo e V Ć© a sua velocidade.


A ação de derrapar leva o veículo ao repouso, após percorrer certa distância d. A força que faz com que o móvel pare é o atrito dos pneus com a rodovia, que pode ser calculado, considerando uma rodovia plana, por meio da equação:

Fat= μ.m.g (2)


Onde μ é o coeficiente de atrito, m a massa do veículo e g é a aceleração da gravidade.


Quando o carro para, reduz-se a sua energia cinética a zero e a sua variação é igual ao trabalho realizado pela força de atrito responsÔvel por parÔ-lo. Esse trabalho mecânico pode ser calculado por:

W=Fr.d (3)

Assim, substituindo 2 em 3 temos:

W= μ.m.g.d

Como ΔEc = W se obtém:

0-(1/2).m.v²= μ.m.g.d

Isolando a distância:

d= v²/(2.μ.g)

Isolando a velocidade:

v= √2.μ.g.d


Essas condições são ideais, ou seja, consideram o estado do veículo, como freios funcionando em bom estado, todas as rodas sendo travadas em simultâneo, assim como boas condições do asfalto. A partir dessa dedução, se observa que a distância de parada na derrapagem depende do coeficiente de atrito e da velocidade, independente da massa do veículo.


A partir dessas equações, é possível estimar a velocidade de colisão a partir das marcas de derrapagem, como as descritas acima. No entanto, é importante destacar que essas condições ideais podem não ser alcançadas na prÔtica, pois a presença de obstÔculos, a superfície da estrada, a pressão dos pneus e outros fatores podem afetar a distância de parada e a velocidade do veículo durante a derrapagem.


Ɖ importante lembrar tambĆ©m que as equaƧƵes acima nĆ£o consideram a inĆ©rcia do corpo humano no interior do veĆ­culo, o que Ć© um fator importante a ser considerado na avaliação de colisƵes em trĆ¢nsito.


Portanto, embora a estimativa da velocidade de colisão a partir das marcas de derrapagem seja uma ferramenta útil para investigadores de trânsito, é importante ter cuidado ao interpretar os resultados e considerar todas as variÔveis envolvidas no processo.

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O trabalho da fĆ­sica forense

A perícia em acidentes de trânsito é uma ciência que mistura física, engenharia e observação meticulosa. Quando os especialistas chegam ao local, eles medem as marcas no asfalto, analisam o posicionamento final dos veículos, observam danos estruturais e avaliam o tipo de colisão.

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As marcas de derrapagem indicam intenção de frenagem, mas também ajudam a inferir:

  • Se o motorista percebeu o perigo a tempo

  • Se houve falha nos freios

  • Se o solo estava molhado ou escorregadio

  • Se o veĆ­culo derrapou ou freou em linha reta

Tudo isso se traduz em números e grÔficos, que ajudam a reconstituir a dinâmica do acidente.

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E se o carro não freou?

Nem sempre hÔ marcas no chão. Se o motorista não teve tempo de frear, ou se os freios falharam, a anÔlise se torna mais complexa. Nesses casos, os peritos usam outros indícios:

  • DeformaƧƵes nos veĆ­culos

  • Projeção dos corpos ou objetos

  • Deslocamento pós-impacto

  • SimulaƧƵes computacionais

  • Dados de sistemas eletrĆ“nicos (em veĆ­culos modernos)

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Freios ABS: e quando o carro não deixa marcas?

Um ponto essencial na anÔlise de acidentes de trânsito modernos é considerar o tipo de freio utilizado pelos veículos. Quando se trata de veículos sem ABS, o procedimento é mais direto: em uma frenagem brusca, as rodas travam, o automóvel desliza sobre o asfalto, e as marcas de derrapagem são claras e contínuas. A partir delas, é possível estimar a velocidade no momento do início da frenagem com boa precisão usando fórmulas descritas acima.


Mas o cenÔrio muda quando entra em cena o ABS (Anti-lock Braking System). Esse sistema evita que as rodas travem completamente, permitindo que os pneus continuem girando mesmo durante uma frenagem intensa. O resultado? O veículo freia com mais controle, diminui a distância de parada e não deixa marcas contínuas de derrapagem no solo. Em vez disso, podem surgir marcas intermitentes, fragmentadas ou mesmo imperceptíveis ao olho nu.


Essa caracterĆ­stica dificulta o uso direto das fórmulas tradicionais, jĆ” que elas se baseiam no atrito de deslizamento — que nĆ£o ocorre da mesma forma em carros com ABS. AlĆ©m disso, o coeficiente de atrito efetivo com ABS tende a ser maior, pois o contato dinĆ¢mico com o solo Ć© mais eficiente do que quando os pneus estĆ£o escorregando.


Nesses casos, a perícia precisa buscar outras estratégias: simulações por computador, dados eletrÓnicos armazenados no veículo, testemunhos e a anÔlise de outros vestígios físicos da colisão. A física continua sendo a base da investigação, mas precisa ser aplicada com atenção às tecnologias modernas dos veículos, como o ABS, que mudam como as leis do movimento se manifestam na prÔtica.

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FĆ­sica que salva vidas

Pode parecer somente uma curiosidade tĆ©cnica, mas saber que Ć© possĆ­vel determinar a velocidade a partir das marcas de derrapagem tem um efeito educativo. Mostra, na prĆ”tica, que as leis da fĆ­sica estĆ£o atuando o tempo todo nas ruas — e que as ignorar pode custar caro.

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A energia de movimento de um veĆ­culo aumenta com o quadrado da velocidade. Isso significa que um carro a 80 km/h tem quatro vezes mais energia que um a 40 km/h. E toda essa energia precisa ser dissipada em uma freada — ou em uma colisĆ£o.


Quando os pneus travam, especialmente em curvas ou em pistas com imperfeiƧƵes, o carro pode perder estabilidade. Isso causa marcas em zigue-zague, ou atƩ em forma de arco. Essas variaƧƵes tambƩm ajudam a entender se o veƭculo derrapou, rodou, ou colidiu de lado.

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Conclusão

As marcas no asfalto nĆ£o sĆ£o somente vestĆ­gios de borracha. SĆ£o registros silenciosos da fĆ­sica em ação — e pistas para que a verdade venha Ć  tona. Determinar a velocidade a partir dessas marcas Ć© mais do que cĆ”lculo: Ć© reconstruir histórias, entender erros e, principalmente, evitar que eles se repitam.


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© 2025 por Patrick Vizzotto

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